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História

A freguesia de Porto Covo, nos meados do século XVIII, não era mais do que uma pequena, mas bonita e acolhedora povoação litoral, que lentamente se desenvolvia sobre a arriba, próximo de uma pequena enseada.

A diminuta dimensão do local é atestada pelo reduzido número de fogos, que contava, em 1780, apenas quatro.

Próximo de Porto Covo, na ilha do Pessegueiro, restavam os fortes do Pessegueiro, únicos testemunhos do grandioso projecto que Filipe II de Espanha e I de Portugal havia concebido para ser um porto marítimo. Os fortes do Pessegueiro eram dois. O primeiro ficava na costa, que contava com uma reduzida guarnição, e contribuía para a defesa e vigilância da costa; o segundo estava já completamente abandonado e arruinado.

Ainda no século XVIII, o principal interesse de Porto Covo prendia-se com a utilização da calheta local e do ancoradouro do Pessegueiro, como portos de pesca e comércio. Mesmo este uso era limitado pelas condições climatéricas, porque quando o mar estava bravo era impossível entrar na barra de Porto Covo e, se o mau tempo estava de sudoeste, não era seguro o uso do abrigo do Pessegueiro.

O local despertou, no entanto, a atenção de um grande capitalista, no último quartel de 700, Jacinto Fernandes Bandeira, membro da alta burguesia comercial pombalina. Jacinto Fernandes era originário de uma família de Viana do Castelo, onde nasceu a 28 de Abril de 1745, não muito abastada. Cedo foi para a capital, onde foi ajudado por familiares e enveredou na actividade comercial, para a qual revelava grande capacidade, vindo a pertencer ao grupo de gente sem títulos que rapidamente enriqueceu e tomou o poder durante o governo do Marquês de Pombal.

Ao seu nome Jacinto Fernandes juntou o Bandeira por ter nascido na Rua da Bandeira, em Viana do Castelo. Em 1768 era candidato a familiar do Santo Ofício com a profissão de homem de negócios; contava então apenas 23 anos de idade. Em 1774, era cavaleiro da Ordem de Cristo; em 1792, escrivão do desembargo do Paço e, no mesmo ano, chega a deputado e inspector da Junta de Comércio.

Foi, efectivamente, uma vida de ascensão económica notável a que fez questão de juntar títulos aristocráticos. Recebeu inúmeras distinções, tais como a de Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, em 1794. Obteve, também, posteriormente, o direito de usar a denominação de senhor de Porto Covo, que lhe foi dado em 13 de Junho de 1796, "em consideração da actividade com que promove o estabelecimento e povoação de Porto Covo, em benefício da agricultura, da pesca e do provimento da Corte, além de diversas comissões que tem desempenhado com satisfação”. Jacinto Fernandes tornou-se alcaide-mor de Vila Nova de Milfontes em 14 de Novembro de 1802 e, algum tempo depois, conselheiro da Real Fazenda. Foi feito barão de Porto Covo em 15 de Agosto de 1805. Para concretizar o seu projecto de edificar uma povoação em Porto Covo, mandou fazer um plano constituído por dois desenhos, actualmente conservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

A saber: um Mappa da Configuracçaõ do Terreno e Porto Côvo que se pretende Habitar, e Cultivar e ainda uma Planta / Da Nova PovoacçaÕ, do / Porto Côvo, dos quais não se conhece data, mas que devem ter sido elaborados entre 1789 e 1794. O segundo desenho está assinado pelo arquitecto Henrique Guilherme de Oliveira, filho do arquitecto Joaquim de Oliveira, de que se sabe ter sido nomeado em 1789 para ocupar o lugar do pai nos seus impedimentos e que tinha tido o cargo de arquitecto de faróis, que fora anteriormente de seu pai. No "Mappa da Configuracçaõ do Terreno e Porto Côvo..." está representada área de Porto Covo onde se pretendia criar a povoação e os arredores desta com a indicação da aptidão e do destino dos terrenos de cultivo. São visíveis também a ilha do Pessegueiro e o forte da costa, mas estão representados sem rigor. A Planta / Da Nova Povoacçaõ, do / Porto Côvo, com o traçado urbanístico dispõe a povoação muito próximo da arriba.

Como diz António Quaresma, na obra Porto Covo – Um exemplo de urbanismo das Luzes, no conjunto urbano “ sobressaem duas praças que lhe conferem esquematicamente certa semelhança com um H: a Praça do Poleirinho, junto ao porto e a Praça do Mercado (que pode identificar-se com a actual praça). Entre as duas, os equipamentos sociais: o hospital para inválidos e expostos e a igreja. Tudo na nova povoação está racional e previamente determinado: blocos de habitação, celeiro, armazém de carvão, estalagem, instalações para os armadores de pesca, edifício da Câmara e da cadeia, casa da Fazenda. Cercando grande parte do conjunto, uma cortina com a dupla função de fortificar e de impedir que alguém se precipitasse da arriba. As estradas para o exterior são dirigidas, nos limites da povoação. Por um arraial que ajuda a manter a impressão de linearidade e racionalidade".

Noutro passo, o mesmo autor afirma ainda que "um dos casos conhecidos da repercussão do urbanismo pombalino fora de Lisboa é o da povoação de Porto Covo, situada no litoral alentejano, escassos quilómetros a sul da vila de Sines. O seu plano de urbanização, inspirado no da baixa lisboeta, teve, porém, concretização limitada. Uma certa rectilinearidade no traçado das ruas e, principalmente a sua simpática praça, eis quanto hoje evoca a ideia inicial (...) Deve notar-se que a semelhança da urbanização do Porto Covo com a da baixa lisboeta está apenas no espírito da solução urbanística. Com efeito em Lisboa tratava-se de reconstruir uma cidade que o terramoto de 1755 destruíra; em Porto Covo, um projecto individual procurava fazer surgir uma povoação a partir praticamente do nada (portanto sem uma dinâmica de crescimento a priori). Neste aspecto, assemelha-se mais aos exemplos de Vila Real de Santo António e, sobretudo, de Manique do Intendente".

Efectivamente a nova povoação não correspondeu ao projecto do arquitecto Henrique Guilherme de Oliveira. O casario implantou-se a uma centena de metros para o interior, tendo os moradores a intenção, certamente, de fugir às desvantagens de tão grande proximidade da orla marítima com as habitações e quintais muito expostos às intempéries e à salugem e grande distanciamento das terras de cultivo. Ao que se sabe o arquitecto não teria visitado o local e baseou-se apenas na teórica natureza ribeirinha, o que explica este desfasamento de interesses, entre o projecto e a realidade da população. Não chegou, também, a ser realizado grande parte do plano inicialmente traçado. É a praça local que, apesar da simplicidade dos edifícios que a rodeiam, melhor documenta a influência do modelo urbanístico pombalino.

Enquanto viveu Jacinto Fernandes Bandeira, empenhou-se no incremento da povoação, o que não deve ter acontecido com os seus sucessores. Faleceu em 30 de Maio de 1806, solteiro e deixou a sua enorme fortuna aos sobrinhos, filhos da sua única irmã, D.ª Maria Josefa Cristina Bandeira. Foi o primogénito desta, Jacinto Fernandes da Costa Bandeira, que herdou o grosso da fortuna do tio e lhe sucedeu na qualidade de senhor e alcaide-mor de Vila Nova de Milfontes, só se encartando no título de 2.º barão de Porto Covo em 26 de Fevereiro de 1822. Pela sua valiosa contribuição para a política do reino, chegou a ser ministro da Fazenda e presidente da direcção do Banco de Lisboa, entre outros muitos cargos públicos; foi elevado, em 19 de Janeiro de 1825, a visconde de Porto Covo da Bandeira e, em 15 de Setembro de 1843, foi a conde do mesmo título. Pinho Leal indica, cerca de um século depois, que Porto Covo tinha uns 20 fogos, que deviam corresponder a pouco mais do que o núcleo patrocinado pelo primeiro barão.

Porto Côvo nunca chegou também a desempenhar o almejado papel de porto do Alentejo. O litoral onde se localizava era muito pouco povoado, entre a baía de Sines e o rio Mira, onde se situavam os dois portos do Alentejo. Teve um papel secundário como porto comercial. A pesca foi a actividade mais importante da população de Porto Côvo, mas que se caracterizava mesmo por um certo arcaísmo, visível no recurso a jangadas de cana que se manteve quase até à actualidade. O desenvolvimento da povoação só registou uma aceleração há alguns anos, com a criação do complexo industrial de Sines.

Em termos demográficos Porto Côvo registava cinquenta e cinco fogos em 1940 e 246 moradores. Em 1980 o número de fogos era de cento e noventa e quatro e o de habitantes 539.

Porto Covo tornou-se freguesia apenas em 1984 e está incluída no concelho de Sines, ao termo da qual sempre pertenceu. Além de ser uma característica povoação piscatória, Porto Covo é também um pólo de interesse turístico, com as suas praias de areia fina e branca, aquecida pelo sol entre as falésias. As suas águas são transparentes e ricas em peixes saborosos que deliciam os visitantes.

Em frente à ilha do Pessegueiro fica a excelente praia da ilha, com condições para a prática de windsurf, passeios de barco e pesca desportiva. Junto à praia pode-se ver uma fortaleza do século XVII, em parte destruída pelo terramoto de 1775. Na ilha do Pessegueiro, que inspirou o músico contemporâneo Rui Veloso, que lhe dedicou uma canção, podem ser apreciadas a fortaleza do século XVII, as ruínas de um porto romano e uma capela quinhentista. No Verão, é possível visitar a ilha em barcos de pesca ou de passeio.